Jeffrey Dahmer: 17 Mortes, um Apartamento em Milwaukee e a Maior Falha da Polícia Americana

Em 22 de julho de 1991, dois policiais de Milwaukee encontraram um homem na rua com algemas num pulso. Ele disse que havia sido agredido num apartamento próximo. Os dois policiais foram até lá, conversaram com o morador, que era calmo, bem-articulado, e explicou que o homem era seu namorado e que tudo não passava de uma briga doméstica. Os policiais saíram. O homem com as algemas, Tracy Edwards, foi devolvido ao apartamento. Jeffrey Dahmer o matou naquela noite.

Não era a primeira vez que a polícia de Milwaukee se aproximava de Dahmer e não o reconhecia pelo que era. Dois meses antes, uma outra vítima havia escapado e pedido ajuda a policiais na mesma rua. Também foi devolvida. Essa sequência de falhas, documentada nos autos do processo e nos relatórios internos do departamento de polícia, é parte do que tornou o caso Dahmer mais do que uma história de serial killer.

Como o apartamento 213 foi descoberto

Depois que Tracy Edwards escapou definitivamente e levou os policiais de volta ao apartamento 213 do Edifício Oxford, o que a polícia encontrou foi descrito pelos próprios investigadores como algo para o qual não haviam sido treinados. Havia partes de corpos na geladeira, crânios numa caixa, fotografias tiradas pelo próprio Dahmer que documentavam cada etapa dos crimes, e um altar improvisado que ele havia planejado construir com as caveiras das vítimas. Ao todo, os investigadores identificaram 17 vítimas ao longo de 13 anos de crimes que haviam começado em 1978.

Dahmer confessou tudo. Demonstrou memória detalhada de cada vítima, cada data, cada circunstância. Seu perfil psicológico, construído ao longo de meses de entrevistas com investigadores e psiquiatras, mostrou um homem que havia desenvolvido fantasias de controle absoluto sobre outros seres humanos desde a adolescência, sem que ninguém ao redor houvesse percebido.

Quem eram as vítimas

Das 17 vítimas identificadas, a maioria eram homens negros ou de outras minorias étnicas, com idades entre 14 e 33 anos. Esse dado é central na análise do caso. O fato de que a polícia ignorou os apelos das vítimas que escaparam tem sido interpretado por pesquisadores e pela comunidade negra de Milwaukee como algo que não pode ser separado do perfil racial das vítimas. Uma delegada que trabalhou no caso afirmou em depoimento posterior que havia negligência sistêmica na abordagem dos casos de desaparecimento que afetavam jovens negros na cidade.

Essa dimensão do caso Dahmer é a que menos aparece na ficção inspirada nele, e é a que mais importa. Casos como o do Maníaco do Parque no Brasil mostram um padrão parecido: vítimas em situação de vulnerabilidade social que desaparecem sem que o sistema reaja com a urgência que o caso exige.

O julgamento, a condenação e a morte

Jeffrey Dahmer foi julgado em 1992. Seu advogado entrou com defesa de insanidade, argumentando que os atos de necrofilia e canibalismo eram incompatíveis com sanidade mental. O júri rejeitou o argumento. Dahmer foi condenado a 15 sentenças consecutivas de prisão perpétua, totalizando 957 anos. Foi morto por um companheiro de cela em novembro de 1994, cerca de dois anos depois do início do cumprimento da pena.

A série “Dahmer: Um Canibal Americano”, lançada pela Netflix em 2022, ficou entre as produções mais assistidas da plataforma no Brasil naquele ano. A produção gerou debate porque foi feita sem consulta às famílias das vítimas, várias das quais manifestaram publicamente sua contrariedade com a forma como a história foi dramatizada. Esse debate, sobre quem tem o direito de contar histórias de crimes reais e como, é um dos mais relevantes para o gênero true crime hoje.

Para quem quer acessar os documentos originais do caso, o Milwaukee City Clerk mantém parte dos registros públicos disponíveis. O caso Dahmer é estudado em cursos de criminologia como exemplo de falha sistêmica de prevenção e como prova de que serial killers raramente são invisíveis por acidente. Há sempre alguém que percebe algo, e nem sempre o sistema está equipado para ouvir. Outros casos com dimensão internacional, como o de Ed Gein, mostram que essa invisibilidade tem raízes que vão além do indivíduo.

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