Maníaco do Parque: Como Francisco Pereira Atraiu 11 Mulheres para a Morte

Em 1998, São Paulo tinha um problema que a polícia demorou para nomear corretamente. Mulheres desapareciam depois de terem sido vistas pela última vez no Parque Estadual das Fontes do Ipiranga, numa área verde extensa na zona sul da cidade. O perfil era parecido: jovens, entre 15 e 30 anos, em busca de emprego. As primeiras desaparecerem entre março e agosto daquele ano. Foram onze, ao todo.

Francisco de Assis Pereira tinha 29 anos quando foi preso, em agosto de 1998. Trabalhava como entregador e frequentava o parque com regularidade. O método era simples e eficaz: ele se aproximava de mulheres que esperavam ônibus ou procuravam emprego e prometia uma vaga como modelo ou atendente num estabelecimento que ficava “perto dali, dentro do parque”. Levava as vítimas para uma área isolada da vegetação, praticava violência sexual e as matava. Tinha feito isso onze vezes antes de ser identificado.

Como ele foi pego

A prisão de Francisco foi resultado de uma denúncia de uma mulher que havia escapado. Ela relatou ter aceitado a oferta de emprego, percebido que estava sendo levada para longe do caminho prometido e conseguido fugir antes de ser agredida. Com a descrição física e o modus operandi, a polícia conseguiu montar uma operação e prendê-lo em flagrante enquanto tentava abordar outra vítima.

Na delegacia, Francisco confessou os crimes com um grau de detalhe que perturbou os investigadores. Sabia as datas, as roupas que as vítimas usavam, os locais exatos dentro do parque. Não demonstrou arrependimento perceptível. O laudo psicológico o descreveu como um sujeito com traços de personalidade antissocial, mas sem psicose ou dissociação da realidade. Ele sabia o que estava fazendo.

O que o caso revelou sobre o perfil de um serial killer

Francisco de Assis Pereira ficou conhecido como “Maníaco do Parque” pela imprensa, um apelido que captura a associação ao local mas obscurece o que o tornava eficaz: a aparência completamente normal. Ele não se destacava. Vestia-se de forma comum, falava de forma convincente, não tinha comportamento ameaçador no primeiro contato. O parque era apenas o instrumento. A verdadeira ferramenta era a capacidade de parecer inofensivo.

Esse padrão, o predador que opera através da confiança e não da força bruta imediata, é uma das características mais estudadas em perfis de serial killers. Casos como o de Ted Bundy, que atraía vítimas com aparência física e carisma, mostram que a violência muitas vezes começa muito antes do ataque físico, no momento em que a vítima decide confiar. A diferença é que Bundy operou por anos nos Estados Unidos; Francisco, em meses, num parque de São Paulo.

O caso também levantou questões sobre a vulnerabilidade de mulheres que buscam emprego em condições precárias e aceitam propostas de desconhecidos por necessidade. Das onze vítimas identificadas, a maioria estava em situação de vulnerabilidade econômica. Essa dimensão social, o fato de que o perfil das vítimas não era aleatório, não teve o mesmo espaço na cobertura que os detalhes do crime em si.

A condenação e o que veio depois

Francisco de Assis Pereira foi condenado a 268 anos de prisão. No sistema penal brasileiro, a pena máxima cumprida é de 40 anos, limite que ele atingiu em 2038. O debate sobre o que acontece quando serial killers chegam ao limite de pena é um dos mais árduos do direito penal brasileiro, e o caso do Maníaco do Parque é citado em todas as discussões sobre o tema.

Para entender como o perfil psicológico de predadores sexuais é construído e estudado, o FBI Crime Classification Manual oferece a base metodológica mais completa disponível publicamente. No contexto brasileiro, casos como o de serial killers que operam por períodos longos mostram que o problema não é exclusivo de uma época ou de um perfil demográfico específico. Francisco de Assis Pereira foi preso. O parque ainda existe. E a pergunta sobre quantas histórias parecidas ficaram sem investigação permanece sem resposta satisfatória.

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