Pedro Rodrigues Filho nasceu em 1954 em Santa Rita do Sapucaí, Minas Gerais. Antes de completar um ano de vida, levou uma pancada na cabeça provocada pelo pai, que havia golpeado a mãe grávida. Os médicos constataram uma fratura no crânio. O exame neurológico mais tarde revelaria que parte do crânio havia pressionado o cérebro durante o desenvolvimento fetal. Pedro cresceu com essa marca. A violência ao redor dele, dentro de casa, foi constante e documentada. Aos 11 anos, empurrou o primo de um moinho de cana por uma briga. Depois disso, a trajetória só foi numa direção.
Antes de completar 14 anos, Pedro havia matado o vice-prefeito de Alfenas, responsabilizando-o pela demissão injusta do pai, e um fazendeiro com quem havia tido conflito. Fugiu para São Paulo, onde começou a se envolver com o crime organizado. Em 1973, com 19 anos, foi preso pela primeira vez. Dentro da penitenciária, matou mais. Ao longo de décadas, Pedro Rodrigues Filho acumulou 71 homicídios confirmados pela Justiça, e alegou ter cometido mais de 100. Nenhum outro serial killer brasileiro chegou perto desse número.
Como operava dentro e fora das prisões
O que diferencia Pedro Rodrigues Filho de outros serial killers é que grande parte dos seus crimes aconteceu dentro do sistema prisional. Ele matava outros detentos: estupradores, pedófilos, traficantes que haviam traído companheiros. Tinha um código próprio que aplicava com consistência dentro das penitenciárias por onde passou. Essa lógica de “justiceiro” dentro das celas foi central na construção da narrativa pública que o cercou.
Entre os crimes, o mais perturbador pela frieza documentada foi o assassinato do próprio pai. O pai de Pedro havia matado a mãe. Dias depois, Pedro entrou na penitenciária onde o pai estava preso, matou-o, e segundo seu próprio relato, comeu parte do coração. Esse detalhe, que ele mesmo descreveu em entrevistas posteriores, marcou a percepção pública do caso de uma forma que nenhum outro episódio conseguiu.
O sistema que não soube o que fazer com ele
Pedro Rodrigues Filho cumpriu mais de 30 anos de prisão. Sua pena total somava mais de 400 anos, mas o limite de cumprimento estabelecido pela legislação brasileira era de 40 anos. Em 2007, foi solto. Não passou um ano livre antes de ser preso novamente, acusado de participar de novos crimes. Em 2011, foi solto de novo.
O debate gerado por cada saída de Pedro era uma versão amplificada do mesmo debate que casos como o de Champinha provocam: o que o sistema penal faz com pessoas que demonstraram, repetidamente, que vão continuar matando independentemente das consequências? A resposta brasileira, por enquanto, não vai além do limite legal de 40 anos, independentemente do histórico do condenado.
Após as últimas saídas, Pedro Rodrigues Filho criou um canal no YouTube onde aparecia falando sobre sua trajetória, comentando crimes e dando conselhos. O canal chegou a milhões de inscritos. Essa transformação em figura pública e de entretenimento gerou reações intensas: para alguns, era a prova de que o sistema não tinha instrumentos adequados para lidar com casos como o dele; para outros, era simplesmente o que o Brasil faz com qualquer história suficientemente extrema, que é transformá-la em conteúdo.
O que o caso revela sobre o Brasil
A trajetória de Pedro Rodrigues Filho começa numa casa violenta no interior de Minas Gerais e termina, por enquanto, em vídeos na internet. Entre esses dois pontos, há décadas de crimes, de prisões, de saídas, de reincidências e de uma cobertura midiática que nunca decidiu com clareza se Pedro era um monstro, um produto do sistema ou ambos ao mesmo tempo.
O Departamento Penitenciário Nacional publica dados anuais sobre reincidência criminal no Brasil que mostram que o problema vai muito além de casos individuais extremos. A taxa de retorno ao crime após o cumprimento de pena é alta, e as condições das penitenciárias brasileiras são documentadas por relatórios do CNJ como fator central nessa equação. Pedro Rodrigues Filho é o caso mais extremo de um problema que o Brasil não resolveu. Sua história é chocante. O contexto que a produziu não é excepcional.





