Em abril de 1992, Evandro Ramos Caetano tinha 6 anos quando desapareceu perto de sua casa em Guaratuba, no litoral do Paraná. O corpo foi encontrado dias depois, em estado de decomposição, com sinais de violência que os laudos descreveram como incompatíveis com acidente. O menino havia sido assassinado. O que aconteceu nos três anos seguintes, durante as investigações e os julgamentos, é tão perturbador quanto o próprio crime, e por razões completamente diferentes.
A polícia do Paraná prendeu seis pessoas: o casal Beatriz e João Abílio Carneiro, donos de uma clínica de estética em Guaratuba, e outros quatro suspeitos com graus variados de envolvimento alegado. A acusação era de que o crime havia sido motivado por um ritual de magia negra. Os réus foram condenados pelo Tribunal do Júri. A pena mais alta foi de 92 anos de prisão para Beatriz Abílio.
O que os réus alegaram e o que os áudios revelaram
Durante anos, os condenados afirmaram que as confissões foram obtidas sob tortura. Relataram sessões de espancamento, privação de sono e ameaças contra familiares durante o período de detenção pela polícia. As confissões, segundo eles, foram dadas para que os maus-tratos parassem, e não porque eram verdadeiras.
Em 2012, um jornalista chamado Klester Cavalcanti publicou o livro “O Nome do Mal”, resultado de anos de investigação sobre o caso. O livro incluía gravações obtidas de forma sigilosa em que um dos réus, já condenado, afirmava em conversas privadas que não havia participado do crime e descrevia como as confissões tinham sido arrancadas. As gravações geraram novo debate público e pedidos de revisão do processo.
A série documental “Guaratuba”, produzida para o streaming brasileiro, retomou o caso em 2022 e trouxe novos depoimentos. O documentário sugere que há inconsistências sérias nas provas utilizadas para as condenações, e que pelo menos alguns dos réus podem ser inocentes. O debate sobre o caso permanece aberto.
O que torna o caso tão difícil de resolver
O caso Evandro concentra três problemas que aparecem repetidamente em investigações criminais brasileiras: a dependência de confissões como prova principal, a fragilidade dos laudos periciais da época, e a pressão social e midiática por uma resposta rápida quando a vítima é uma criança.
A narrativa do ritual de magia negra, em particular, foi amplamente noticiada e criou uma moldura interpretativa que dificultou qualquer avaliação fria das evidências. Uma vez que os jornais estabeleceram a versão dos rituais, questionar essa versão passou a equivaler, na percepção pública, a defender os acusados. Isso não é exclusividade do caso Guaratuba. Outros processos brasileiros, como os analisados no contexto do caso Vitória, mostram como a pressão externa molda o ritmo e a qualidade das investigações.
O paradoxo do caso é que a questão central, quem matou Evandro, nunca foi definitivamente respondida. Os condenados cumpriram ou estão cumprindo suas penas. Se algum deles é inocente, o verdadeiro responsável nunca foi encontrado. E se todos são culpados, as alegações de tortura seguem sem investigação formal concluída.
O que ficou
Beatriz Abílio foi solta após cumprir parte da pena. Em entrevistas posteriores, manteve a versão de inocência. Outros réus também obtiveram progressão de regime ao longo dos anos. A família de Evandro nunca teve uma resposta que considerasse satisfatória sobre o que aconteceu com o menino.
Para quem quer acompanhar os documentos do processo, parte dos autos está disponível nos arquivos do Tribunal de Justiça do Paraná. O livro “O Nome do Mal” continua sendo a investigação jornalística mais completa sobre o caso e é o ponto de partida recomendado para quem quer entender a complexidade das contradições. O caso Evandro de Guaratuba permanece, décadas depois, como um dos julgamentos mais controversos da história criminal brasileira, ao lado de outros que geraram dúvidas permanentes sobre se a Justiça chegou à conclusão certa.





