Em 1º de novembro de 2007, Meredith Kercher, estudante britânica de 21 anos, foi encontrada morta no apartamento que dividia com outras colegas em Perugia, na Itália. Havia sido esfaqueada. Uma das colegas de quarto era Amanda Knox, americana de Seattle com 20 anos, que havia chegado à cidade meses antes para estudar. A investigação que se seguiu foi uma das mais assistidas e discutidas da história do true crime internacional, não pelo crime em si, mas pelo que aconteceu depois dele: um processo que durou oito anos, quatro vereditos diferentes e uma cobertura jornalística que a maioria dos analistas de mídia avalia como fundamentalmente distorcida.
Amanda Knox foi presa junto com o namorado da época, Raffaele Sollecito, dias após o crime. Um terceiro homem, Rudy Guede, cidadão marfinense residente em Perugia, havia deixado impressões digitais e DNA no local. Guede foi julgado separadamente em rito rápido e condenado a 30 anos, reduzidos a 16 em apelação. Knox e Sollecito foram julgados num processo longo e muito mais exposto. A imprensa italiana, e depois a britânica, construíram uma narrativa sobre Amanda que mesclava comportamento incomum após a morte da amiga, relacionamentos passados e especulações sobre o caráter dela que tinham pouca relação com as evidências.
Os quatro vereditos
Em 2009, Knox e Sollecito foram condenados a longos anos de prisão. Em 2011, após apelação, foram absolvidos e liberados. Em 2013, a Corte de Cassação anulou a absolvição e determinou novo julgamento. Em 2014, foram condenados novamente em segunda instância. Em março de 2015, a Corte de Cassação absolveu definitivamente os dois, determinando que as evidências não sustentavam a condenação. Knox havia passado quatro anos presa. Sollecito havia sido preso por quase o mesmo período. A decisão final foi unânime.
Os problemas com o processo foram documentados extensamente por pesquisadores de direito penal comparado. A análise de DNA que incriminava Knox foi contestada por peritos independentes contratados pela defesa, que identificaram problemas sérios nos protocolos de coleta e análise. O comportamento de Knox após o crime, que a imprensa descreveu como frio e inadequado, foi apresentado como indício de culpa — algo que especialistas em trauma descrevem como uma interpretação sem base científica.
O que o caso revela sobre mídia e julgamentos
O caso Amanda Knox é estudado em cursos de jornalismo e comunicação como um exemplo de como a cobertura midiática pode construir uma narrativa paralela que interfere no processo judicial. Apelidos dados pela imprensa italiana, como “Foxy Knoxy”, e histórias sobre sua vida sexual e comportamento foram publicados como se fossem relevantes para a questão de culpa ou inocência. Quando a absolvição definitiva veio, parte da imprensa que havia contribuído para a condenação na opinião pública não reconheceu os próprios erros.
O paralelo com o caso JonBenét Ramsey é frequentemente traçado: em ambos, a cobertura jornalística transformou suspeitos em culpados antes do veredito, e a narrativa construída pela mídia foi mais persistente do que os fatos estabelecidos pela Justiça. A absolvição definitiva de Amanda Knox está disponível nos registros da Corte Suprema de Cassação italiana em cortedicassazione.it. O documentário “Amanda Knox”, lançado pela Netflix em 2016, inclui entrevistas com os próprios protagonistas.





