Entre 1989 e 1992, pelo menos 19 crianças foram assassinadas e mutiladas em Altamira, no Pará. Tinham entre 6 e 13 anos. Os corpos foram encontrados em diferentes pontos da cidade e da região, todos apresentando sinais de castração. A investigação chegou a uma mulher chamada Valentina de Andrade, líder de um grupo religioso chamado Lineamento Universal Superior, o LUS, que ensinava a seus seguidores que crianças do sexo masculino precisavam ser preparadas espiritualmente para uma missão em outro plano de existência.
Valentina de Andrade havia vivido no Brasil, na Argentina e no Uruguai antes de se estabelecer em Altamira. Ela era carismática, culta, e construiu um círculo de devotos que acreditavam genuinamente em sua autoridade espiritual. O LUS combinava elementos de espiritismo, ufologia e crenças new age numa doutrina própria que Valentina havia elaborado ao longo de anos. Famílias de baixa renda entregavam seus filhos ao grupo acreditando que estavam participando de algo sagrado.
A investigação e o julgamento
Valentina de Andrade foi presa em 1993 no Uruguai e extraditada para o Brasil. O processo judicial foi longo e marcado por dificuldades probatórias: as principais testemunhas eram crianças, e parte do material coletado na investigação foi considerado insuficiente pelos advogados de defesa. Em 2003, após mais de uma década de processo, Valentina foi absolvida por falta de provas diretas que a vinculassem aos assassinatos. Saiu da prisão livre.
A absolvição gerou indignação nas famílias das vítimas e em organizações de defesa de direitos da criança. Até hoje, os crimes de Altamira permanecem sem condenações definitivas pelos homicídios. Membros menores do grupo foram condenados por outros crimes relacionados, mas a questão central, quem matou essas crianças e a mando de quem, nunca foi respondida com a firmeza que a lei exige para uma condenação.
O padrão de grupos que usam crianças vulneráveis
O caso Valentina de Andrade é comparado a outros casos de grupos coercitivos no Brasil que tiveram acesso a crianças através da confiança de famílias em situação de vulnerabilidade. Assim como na Seita da Mega-Sena e em outros grupos, a exploração da crença religiosa foi o mecanismo que permitiu que adultos exercessem controle sobre famílias e, através delas, sobre crianças. A diferença de escala e gravidade é enorme, mas a estrutura de manipulação apresenta semelhanças que pesquisadores de grupos coercitivos identificam como padrões recorrentes.
O CEDECA, Centro de Defesa da Criança e do Adolescente do Pará, documentou os casos de Altamira e continua sendo uma referência para quem estuda a vulnerabilidade de crianças em contextos de exploração religiosa e ritual. Organizações internacionais como o UNICEF Brasil publicam relatórios anuais sobre violência contra crianças no país que contextualizam casos como o de Altamira dentro de um panorama mais amplo de proteção da infância.





