Em 16 de junho de 2019, Anderson do Carmo foi encontrado morto dentro de sua casa em Pendotiba, em Niterói, no Rio de Janeiro. Havia sido baleado várias vezes. Sua esposa era Flordelis dos Santos de Souza, pastora, mãe adotiva de dezenas de filhos e, na época, deputada federal eleita pelo Partido Social Democrático. Flordelis havia acabado de assumir o mandato meses antes. O crime aconteceu dentro de casa. Os primeiros suspeitos foram os próprios filhos do casal.
A investigação da Polícia Civil do Rio de Janeiro levou meses. O que foi se revelando ao longo do processo destruiu sistematicamente a imagem pública que Flordelis havia construído ao longo de anos: a da mulher que havia adotado mais de cinquenta crianças em situação de vulnerabilidade, que pregava em igrejas, que tinha uma história de superação da pobreza, que representava valores de família e fé. Por trás disso, a investigação apontou uma estrutura de controle, violência psicológica e manipulação que havia culminado num assassinato planejado com a participação de filhos que ela própria havia moldado.
O que a investigação encontrou
A polícia concluiu que Flordelis havia orquestrado o assassinato de Anderson do Carmo por motivos que incluíam o controle do patrimônio do casal, conflitos sobre a gestão das finanças da família e um relacionamento que os investigadores descreveram como marcado por violência de ambos os lados. Anderson era descrito por alguns filhos como autoritário e agressivo; Flordelis, como alguém que mantinha os filhos adotados numa situação de dependência total, usando ameaças de devolução como instrumento de controle.
Dois filhos adotivos foram condenados pelo assassinato. Outros foram processados por participação em diferentes graus. Um deles atirou. Outro providenciou a arma. As conversas de WhatsApp recuperadas pela polícia mostravam a articulação do plano em mensagens trocadas dentro da própria família, com a presença de Flordelis nas discussões.
A cassação do mandato e o julgamento
Em agosto de 2021, a Câmara dos Deputados cassou o mandato de Flordelis por 437 votos a 7. Foi um dos placares mais expressivos de uma cassação na história recente do parlamento brasileiro. Sem o mandato, ela perdeu o foro privilegiado e passou a ser julgada pela Justiça comum do Rio de Janeiro.
O julgamento pelo Tribunal do Júri aconteceu em novembro de 2022. Flordelis foi condenada a 50 anos e 28 dias de reclusão, em regime fechado. A sentença incluiu as qualificadoras de motivo torpe, uso de recurso que dificultou a defesa da vítima e feminicídio por razão de condição do sexo masculino, o que gerou debate jurídico, já que o feminicídio havia sido criado para proteger mulheres, e sua aplicação inversa era inédita em caso de repercussão nacional.
O que o caso expôs
O caso Flordelis é estudado hoje em faculdades de direito e comunicação por reunir elementos que raramente aparecem juntos: uma figura política em exercício, uma família numerosa usada como cenário de respeitabilidade, a instrumentalização da religião como escudo público e a violência doméstica como pano de fundo de um crime de homicídio doloso. Cada um desses elementos, isolado, seria suficiente para um caso de grande repercussão. Juntos, produziram um dos processos criminais mais assistidos do Brasil nos anos 2020.
Casos como o de Suzane Von Richthofen e o de Elize Matsunaga têm em comum com Flordelis o planejamento frio de um crime dentro de uma relação que o mundo exterior enxergava como normal ou até admirável. A diferença é que Flordelis exercia um cargo público no momento do crime, o que adicionou uma dimensão institucional ao caso que os outros não tinham.
Os autos do processo são públicos e podem ser consultados no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. O podcast “Fábrica de Crime” produziu uma série de episódios sobre o caso que inclui entrevistas com pessoas próximas à família e análise do processo. Para quem quer entender como a construção de uma imagem pública pode coexistir com uma realidade completamente diferente, o caso Flordelis é um dos mais documentados e analisados dos últimos anos no Brasil.





