Os Homens das Máscaras de Chumbo: O Mistério de Niterói que Dura 60 Anos

Em 17 de agosto de 1966, um guarda chamado Valdir Costa Crispino encontrou dois corpos no Morro do Vintém, em Niterói, no Rio de Janeiro. Os homens estavam deitados de costas, lado a lado, sobre impermeáveis dobrados, como se tivessem se preparado para aguardar alguma coisa. Cada um deles usava uma máscara artesanal feita de chumbo, cobrindo os olhos. Do lado dos corpos, havia uma garrafa de água vazia, dois panos umedecidos e um bloco de notas. Na última página, uma mensagem escrita em português: “16:30 estar no local determinado. 18:30 ingerir as cápsulas após o efeito. Proteger os metais aguardar sinal máscara.”

Sessenta anos depois, ninguém sabe quem eram os dois homens, por que estavam ali, o que significavam as instruções ou o que aconteceu com eles. O caso é conhecido no Brasil como o dos “Homens das Máscaras de Chumbo” e figura entre os mistérios não resolvidos mais perturbadores da história do país, ao lado de casos como o do Homem de Somerton, na Austrália, que também jamais teve identidade confirmada.

O que a perícia encontrou

Os corpos foram identificados como Manuel Pereira da Cruz, 32 anos, e Miguel José Viana, 34 anos, ambos de Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro. Segundo familiares e conhecidos, eles haviam saído juntos alguns dias antes dizendo que iam a Niterói comprar materiais eletrônicos. Eram técnicos em eletrônica, e essa informação seria relevante nas teorias que se seguiriam.

O laudo médico determinou que a causa da morte foi parada cardíaca. Mas não foram encontradas substâncias conhecidas que explicassem a morte. As “cápsulas” mencionadas no bilhete nunca foram identificadas. As máscaras de chumbo eram improvisadas, feitas de chapa fina dobrada manualmente, sem solda ou acabamento. Não havia sinal de violência, e nenhuma marca de luta. Os dois simplesmente subiram ao morro, deitaram sobre os impermeáveis, colocaram as máscaras e morreram.

As teorias que nunca se confirmaram

A combinação de elementos, dois técnicos em eletrônica, máscaras de proteção contra radiação, um bilhete com instruções precisas sobre horários e ingestão de substâncias, gerou um conjunto de hipóteses que vão do experimento científico mal planejado até o ritual de contato com extraterrestres.

A hipótese do contato alienígena ganhou força porque o local tinha histórico de avistamentos de objetos não identificados, e porque as máscaras de chumbo são usadas como proteção contra radiação eletromagnética. Segundo essa linha de raciocínio, os dois homens acreditavam estar participando de algum experimento ou ritual que envolveria a chegada de uma nave. As cápsulas ingeridas poderiam ser alguma substância que eles acreditavam que os prepararia para o contato.

Outra teoria apontava para um grupo espiritualista que operava na região e que tinha práticas que incluíam ingestão de substâncias em contextos ritualísticos. Há registros de que Manuel e Miguel frequentavam grupos assim. Mas nenhuma investigação conseguiu identificar o grupo específico, as substâncias ou os outros membros envolvidos.

A teoria mais prosaica, e talvez a mais difícil de aceitar exatamente por isso, é a de que os dois simplesmente ingeriram algo que acharam que seria seguro, e morreram de uma intoxicação cujo agente nunca foi identificado. A toxicologia da época era limitada, e substâncias menos comuns provavelmente não foram testadas.

Por que o caso não foi resolvido

Em parte, a investigação de 1966 foi conduzida com as ferramentas disponíveis à época, que eram insuficientes para um caso dessa natureza. Em parte, o contexto político do Brasil, que vivia os primeiros anos do regime militar, pode ter contribuído para que certas linhas de investigação fossem abandonadas sem muito escrutínio público.

Pesquisadores e jornalistas retomaram o caso em múltiplas ocasiões ao longo das décadas. A jornalista brasileira Denise Tavares publicou uma investigação extensa sobre o caso, que incluiu entrevistas com familiares e análise dos documentos disponíveis. Mas os documentos originais da perícia estão parcialmente perdidos, o que dificulta qualquer revisão forense com tecnologia atual.

O caso foi incluído numa base de dados internacional de mistérios não resolvidos e ganhou atenção fora do Brasil graças a reportagens em publicações como a BBC e o site BBC Brasil, que cobriu o aniversário do caso com entrevistas e análise. Para quem se interessa por casos com esse perfil de mistério genuíno, o caso Dyatlov Pass tem características parecidas: mortes inexplicáveis em circunstâncias que nenhuma investigação conseguiu reconstruir de forma satisfatória.

Sessenta anos é tempo suficiente para que um mistério se torne lenda. O Morro do Vintém ainda existe, em Niterói, acessível a quem quiser visitá-lo. As máscaras de chumbo originais estão guardadas. O bilhete também. E a pergunta sobre o que Manuel e Miguel esperavam que acontecesse naquela tarde de agosto de 1966 permanece sem resposta.

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